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Palavra
de Vida de Julho de 2008
«O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas» (Mt 7, 12).
Quem é que nunca experimentou uma sede de infinito? Ou nunca sentiu um desejo apaixonado de abarcar a imensidão? Muitas vezes até já sentimos uma profunda insatisfação por aquilo que fazemos ou somos. Se assim for, vamos gostar de conhecer uma fórmula que nos dê a plenitude que tanto ansiamos: uma maneira de não ficar com remorsos por deixar passar os dias em vão…
Há uma palavra no Evangelho que nos faz pensar e que, mesmo se só for compreendida parcialmente, nos vai fazer transbordar de alegria. Ali está condensado tudo o que devemos fazer na vida. Essa frase resume todas as leis que Deus gravou no coração das pessoas.
É a seguinte:
«O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas».
É a chamada “regra de ouro”.
Foi Cristo que a trouxe, embora já fosse conhecida universalmente através do Antigo Testamento. Era conhecida por Séneca e, no Oriente, o chinês Confúcio citou-a várias vezes. E muitos outros ainda. Isto mostra que Deus a considera importante e gostaria que todas as pessoas fizessem dela a norma das suas vidas.
É uma regra bonita e até parece um slogan.
Vamos citá-la de novo:
«O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas».
Amemos deste modo todos os próximos que encontrarmos durante o dia. Basta imaginarmos que estamos na situação deles e tratá-los como gostaríamos de ser tratados se fôssemos nós.
A voz de Deus, que fala dentro de nós, há-de sugerir-nos qual a expressão de amor mais adequada para cada circunstância.
É fome que ele tem? Pensemos que somos nós que temos fome e dêmos-lhe de comer.
Está a sofrer uma injustiça? Sou eu que a sofro também!
Está a passar um momento de escuridão e de dúvida? Sou eu que estou. Confortemo-lo com as nossas palavras, partilhando as suas dificuldades. E não descansemos enquanto ele não se sentir iluminado e aliviado. Se fôssemos nós, gostaríamos de ser tratados assim.
É um deficiente físico? Quero amá-lo até quase sentir no meu corpo e no meu coração a sua deficiência. O amor irá sugerir-nos o melhor modo para o fazer sentir-se igual aos outros, e até com uma graça a mais, porque nós, cristãos, sabemos quanto vale o sofrimento. E devemos fazer o mesmo com todos, sem qualquer discriminação entre simpático e antipático, jovem e velho, amigo e inimigo, compatriota e estrangeiro, bonito e feio… O Evangelho diz mesmo todos.
Tenho a sensação de ouvir um murmúrio geral… Compreendo… Talvez estas minhas palavras pareçam demasiado simples. Mas quanta transformação requerem! Como são diferentes do nosso modo habitual de pensar e de agir!
Por isso, coragem! Tentemos começar.
Um dia passado assim vale uma vida! E, à noite, já não nos vamos reconhecer. Sentiremos uma alegria nunca antes experimentada. Teremos uma força nova. Deus estará connosco, porque Deus está com aqueles que amam. Os nossos dias passarão a ser cheios de sentido.
Pode ser que às vezes andemos mais devagar ou sejamos tentados a desanimar e a voltar à vida de antes… Mas não! Coragem! Deus dá-nos a força.
Recomecemos sempre. Se perseverarmos, veremos lentamente o mundo mudar à nossa volta. Compreenderemos que o Evangelho torna a vida mais deslumbrante, ilumina o mundo, dá sabor à nossa existência e tem em si a capacidade de resolver todos os problemas.
E não ficaremos descansados enquanto não comunicarmos a nossa extraordinária experiência aos outros: aos amigos que a possam compreender, às pessoas da nossa família, a todos aqueles a quem a quisermos transmitir.
Renascerá a esperança.
«O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas».
Chiara Lubich
Publicada em: La dottrina spirituale, Roma 2006, p. 187.
Palavra
de Vida de Junho de 2008
«Aquele que guarda os Seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele» (1 Jo 3, 24).
Quando gostamos muito de alguém, o nosso maior desejo é estar sempre com essa pessoa amada. Este é também o desejo de Deus, que é Amor. Ele criou-nos para que O pudéssemos encontrar. E a nossa alegria nunca será completa enquanto não chegarmos a uma união íntima com Ele, que é o único que pode saciar o nosso coração. Ele desceu do Céu para estar connosco e para nos introduzir na comunhão com Ele.
São João, na sua Carta, fala de “permanecer” um no outro: Deus em nós e nós n’Ele. Recorda esta exigência profunda, que Jesus manifestou na Última Ceia. «Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós», tinha dito o Mestre, explicando, com a alegoria da videira e dos ramos, como é forte e vital o vínculo que nos une a Ele (1).
Mas como alcançar a união com Deus?
São João não tem hesitações: basta “guardar os Seus mandamentos”:
«Aquele que guarda os Seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele».
Mas, serão muitos os mandamentos que é preciso “guardar” para chegar a esta unidade?
Não, a partir do momento em que Jesus os resumiu a todos num único mandamento. «Este é o Seu mandamento – recorda São João, imediatamente antes de enunciar a nossa Palavra de Vida, aquela que escolhemos para este mês –: que acreditemos no Nome de Seu Filho, Jesus Cristo, e que nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que Ele nos deu» (2).
Acreditar em Jesus e amarmo-nos como Ele nos amou: é este o único mandamento.
Se a existência humana só encontra a sua realização se Deus permanecer entre nós, então só há um modo para sermos plenamente nós mesmos: amar! São João está de tal modo convencido disso que o repete muitas vezes ao longo de toda a Carta: «Quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele» (3); «Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós…» (4).
Conta a tradição, a este respeito, que quando São João, já velhinho, era interrogado sobre os ensinamentos do Senhor, repetia sempre as palavras do Mandamento Novo. Se lhe perguntavam porque é que não falava de outra coisa, respondia: «Porque é esse o mandamento do Senhor! Se o praticarmos, já não precisamos de mais nada».
Assim acontece com cada Palavra de Vida: leva-nos infalivelmente a amar. Não pode ser de outro modo, porque Deus é Amor e cada Palavra Sua contém o Amor, exprime-o. E, se for vivida, transforma tudo em Amor.
«Aquele que guarda os Seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele».
«Aquele que guarda os Seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele».
A Palavra deste mês convida-nos a acreditar em Jesus, a aderir com todo o nosso ser à Sua Pessoa e ao Seu ensinamento. A acreditar que Ele é o amor de Deus – como nos ensina ainda São João nesta Carta – e que, por amor, deu a vida por nós (5). A acreditar até quando nos parecer que Ele está longe, quando não O sentirmos, quando surgirem dificuldades ou sofrimentos...
Fortalecidos com esta fé, saberemos viver segundo o Seu exemplo e, obedecendo ao Seu mandamento, saberemos amarmo-nos como Ele nos amou. Amar até quando o outro já não nos parece amável, ou quando temos a impressão de que o nosso amor é inadequado, inútil, não correspondido. Fazendo assim reavivaremos os relacionamentos entre nós, de um modo cada vez mais sincero, cada vez mais profundo, e a nossa unidade atrairá a permanência de Deus entre nós.
«Aquele que guarda os Seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele».
«Estávamos enamorados, o meu marido e eu, e era muito fácil o relacionamento entre nós nos primeiros anos de casamento. Mas, neste último período, ele anda muito cansado e stressado. No Japão, o trabalho pesa mais do que um rochedo, sobre as costas de uma pessoa .
Uma noite, depois de voltar do trabalho, ele sentou-se à mesa para jantar. Fiz menção de me sentar ao lado dele, mas, aos gritos, ele mandou-me embora: “Não tens o direito de comer, porque não trabalhas!”. Passei a noite a chorar, pensando em ir-me embora de casa, em me separar. No dia seguinte mil e um pensamentos continuavam a atormentar--me: “Errei em ter casado com ele, já não consigo viver com ele”.
À tarde falei disto às amigas com quem partilho a minha vida cristã. Ouviram-me com amor e, através da comunhão com elas, reencontrei a força e a coragem necessárias para continuar em frente. Consegui ir preparar o jantar para o meu marido. À medida que se aproximava a hora do seu regresso, aumentava o meu receio: como é que ele vai reagir hoje? Mas uma voz, dentro de mim, parecia dizer-me: “Aceita este sofrimento, não desistas. Continua a amar”. E eis que ele bateu à porta. Trouxe um bolo para mim. “Desculpa-me – disse-me – por aquilo que aconteceu ontem”».
Chiara Lubich
1) Cf. Jo 15, 1-5; 2) 1 Jo 3, 23; 3) ibid. 4, 16; 4) ibid. 4, 12; 5) cf. ibid. 3, 16.
Palavra
de Vida de Maio de 2008
«Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2 Cor 3, 17).
O Apóstolo Paulo escreveu aos cristãos da cidade de Corinto, por quem tinha uma predilecção especial. Tinha vivido com eles durante quase dois anos, entre o ano 50 e o ano 52. Tinha semeado ali a Palavra de Deus, lançando os alicerces da comunidade cristã, até a gerar como um pai (1).
Poucos anos mais tarde, quando lá voltou, alguns
deles desacreditaram publicamente a sua
autoridade de Apóstolo (2). Foi um motivo para
reafirmar a grandeza do seu ministério. Ele
anunciava o Evangelho não por iniciativa
própria, mas porque era movido por Deus. A
Palavra de Deus, para ele, já não tinha nada de
oculto, porque o Espírito Santo tinha-lha feito
compreender à luz daquilo que tinha acontecido
em Cristo Jesus. Por isso, podia vivê-
-la e anunciá-la com plena liberdade. Ela
permitia-lhe entrar em comunhão com o Senhor,
ser transformado n’Ele e até ser guiado pelo seu
próprio Espírito de liberdade.
«Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade».
É Jesus Ressuscitado, o Senhor, quem continua ainda hoje, como nos tempos de Paulo, a agir na História, e em particular na comunidade cristã, através do seu Espírito. A nós, concedeu-nos a graça de compreender o Evangelho em toda a sua novidade e continua a escrevê-lo nos nossos corações para que se torne a lei da nossa vida.
Nós não somos orientados por leis que nos sejam impostas de fora, não somos escravos condicionados por regulamentos com que não concordemos ou de que não estejamos convencidos. O cristão é movido por um princípio de vida interior que o Espírito Santo colocou nele através do baptismo. É movido pela Sua voz, que repete as palavras de Jesus, fazendo-as compreender em toda a sua beleza. São expressão de vida e de alegria: o Espírito Santo torna-as actuais, ensina-nos como as podemos viver e, ao mesmo tempo, infunde em nós a força para as podermos pôr em prática. É o próprio Senhor que, graças ao Espírito Santo, vem viver e agir em nós, tornando-nos Evangelho vivo.
Sermos guiados pelo Senhor, pelo Seu Espírito, pela Sua Palavra: esta é a verdadeira liberdade! Coincide com a realização mais profunda do nosso eu.
«Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade».
Mas sabemos que, para que o Espírito Santo possa agir, é necessária uma total disponibilidade para O ouvir – estarmos prontos a mudar a nossa mentalidade, se for preciso – e, depois, aderir plenamente à Sua voz. É fácil deixarmo-nos escravizar pelas pressões exercidas pelos costumes e pelo consenso social, e sermos levados a fazer escolhas erradas.
Para viver a Palavra de Vida deste mês é preciso aprender a dizer um “não” decidido ao negativo, que nos vem do coração todas as vezes que somos tentados a ficar instalados em atitudes que não são segundo o Evangelho. Temos que aprender a dizer um “sim” convicto a Deus, sempre que percebermos que Ele nos chama a viver na verdade e no amor.
Descobriremos a ligação entre a cruz e o Espírito, como entre causa e efeito. Todo o corte, toda a poda, todo o não ao nosso egoísmo é uma fonte de luz nova, de paz, de alegria, de amor, de liberdade interior, de realização de nós mesmos. É uma porta aberta ao Espírito. Neste tempo de Pentecostes, Ele poderá derramar sobre nós, com maior abundância, os Seus dons. Poderá guiar-nos. Seremos reconhecidos como verdadeiros filhos de Deus.
Seremos cada vez mais livres do mal, cada vez mais livres para amar.
«Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade».
Foi essa liberdade que encontrou um funcionário das Nações Unidas, durante o seu último mandato num dos países dos Balcãs. A missão que lhe tinha sido confiada representava um trabalho gratificante, embora de extrema responsabilidade. Uma grande dificuldade eram os prolongados momentos longe da família. Mesmo quando voltava a casa não era fácil deixar “fora da porta” o fardo do trabalho em que estava envolvido, para se dedicar de alma e coração aos filhos e à esposa.
De repente, foi transferido para outra cidade, sempre na mesma região. Seria impensável levar consigo a família porque, apesar dos acordos de paz assinados há pouco, as hostilidades continuavam. O que fazer? O que é que valia mais, a carrreira ou a família? Sobre este assunto falou longamente com a esposa, com quem partilha, há um certo tempo, uma intensa vida cristã. Pedem a luz ao Espírito Santo e, juntos, procuram a vontade de Deus para toda a família. Por fim, a decisão: era melhor deixar aquele trabalho que iria até ser bem remunerado. Foi uma decisão realmente rara naquele ambiente profissional. «A força para fazer esta escolha – conta ele mesmo – foi fruto do amor recíproco com a minha esposa, que nunca me fez pesar os incómodos que o meu trabalho lhe trazia. Aquilo que eu fiz foi procurar o bem da família, para lá da segurança económica e da carreira, e encontrei a liberdade interior».
Chiara Lubich
1) Cf. 1 Cor 3, 6.10; 4, 15; 2) cf. 2 Cor 2, 5-11; 7, 12.
Palavra
de Vida de Abril de 2008 
«A paz será obra da justiça, e o fruto do direito será a tranquilidade e a segurança para sempre»
(Is 32, 17).
«Uma vez mais virá sobre nós o Espírito do Alto. Então o deserto se converterá em jardim, e o jardim será como uma floresta». É assim que começa o texto de onde é tirada a Palavra de Vida deste mês. O profeta Isaías, na segunda metade do século VIII antes de Cristo, anuncia um futuro de esperança para a Humanidade. Será quase como uma nova criação, um novo «jardim», habitado pelo direito e pela justiça, de onde vêm a paz e a segurança.
Esta nova era de paz (shalom) será obra do Espírito divino – força de vida capaz de renovar a Criação – e, ao mesmo tempo, será fruto do respeito pelo pacto entre Deus e o Seu povo e entre os membros do próprio povo, tornando-se inseparável a comunhão com Deus e a comunidade dos homens.
«A paz será obra da justiça, e o fruto do direito será a tranquilidade e a segurança para sempre».
As palavras de Isaías são um apelo à necessidade de um compromisso sério e responsável de seguir as normas comuns da convivência civil que, ao impedirem o individualismo egoísta e a anarquia, favorecem a coexistência harmoniosa e a actividade orientada para o bem comum.
Será possível viver segundo a justiça e praticar o direito? Sim, na condição de reconhecermos todas as outras pessoas como irmãos e irmãs e de vermos a humanidade como uma família, no espírito da fraternidade universal.
E como é que isto pode ser possível sem a presença de um Pai comum a todos? No ADN de cada pessoa, por assim dizer, Ele já inscreveu a fraternidade universal. De facto, aquilo que um pai mais deseja é que os filhos se tratem como irmãos e irmãs, se estimem, se amem. Por isso, o “Filho” por excelência do Pai, o Irmão de cada pessoa, veio e deixou-nos como norma, para a nossa convivência social, o amor recíproco. Respeitar as regras do civismo, cumprir o nosso dever, são expressões do nosso amor. O amor é a norma mais importante de todo o agir, aquela que anima a verdadeira justiça e constrói a paz. As nações precisam de leis cada vez mais adequadas às necessidades da vida social e internacional, mas, sobretudo, precisam de homens e mulheres que se organizem segundo a caridade. Esta organização é justiça, e só segundo essa perspectiva é que as leis têm valor.
«A paz será obra da justiça, e o fruto do direito será a tranquilidade e a segurança para sempre».
Como viver, então, a Palavra de Vida durante este mês? Dedicando-nos com um zelo ainda maior aos deveres profissionais, à ética, à honestidade, à legalidade. Considerando as outras pessoas como se fossem da nossa família, e que, por isso, esperam de nós atenção, respeito, uma atitude solidária. Se na base da nossa vida, nos nossos relacionamentos com o próximo, pusermos a mútua e contínua caridade (que precede todas as coisas), como a mais perfeita expressão do nosso amor para com Deus, então a nossa justiça será mesmo agradável a Deus.
«A paz será obra da justiça, e o fruto do direito será a tranquilidade e a segurança para sempre».
Um polícia do Sul da Itália – por uma opção de solidariedade para com as pessoas mais necessitadas da sua cidade – decidiu ir viver com a sua família num dos bairros económicos construídos há pouco tempo: as ruas são de terra batida, não há iluminação pública, não existe água canalizada, nem esgotos. E, quanto a serviços sociais e transportes públicos, nem se fala!…
«Procurámos criar com cada família e morador do bairro – conta ele – uma relação de conhecimento e de diálogo, tentando diminuir o abismo entre os cidadãos e a administração pública. Pouco a pouco, os cerca de três mil habitantes do bairro tornaram-se sujeitos activos, na relação com as instituições públicas, através de uma comissão criada para esse efeito. Conseguiu-se obter, da administração regional, a aplicação pública de uma grande soma para o saneamento do bairro, que agora se tornou um bairro-piloto. Isto deu origem a actividades formativas para os representantes de todas as comissões de bairros da cidade».
Chiara Lubich
Palavra de Vida de Março de 2008
«O Meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e consumar a Sua obra»
(Jo
4, 34).
A
qui está uma maravilhosa Palavra de Jesus! De certo modo, todos os cristãos a podem repetir para si mesmos. É uma Palavra que, se for posta em prática, pode levar-nos bastante longe na Santa Viagem da vida.
Jesus, sentado na borda do poço de Jacob, na Samaria, estava a concluir o Seu diálogo com a samaritana. Os discípulos, quando voltaram da cidade vizinha – onde tinham ido comprar mantimentos –, ficaram admirados por ver o Mestre a falar com uma mulher. Mas nenhum Lhe perguntou porque é que estava a falar com ela. Logo que a samaritana se afastou, insistiram com Ele para que comesse. Jesus, adivinhando os seus pensamentos, explicou-lhes a razão do Seu modo de proceder: «Eu tenho um alimento para comer, que vós não conheceis».
Os discípulos não compreenderam. Pensavam que se tratava do alimento material e interrogaram-se entre si se alguém, durante a sua ausência, teria dado de comer ao Mestre. Jesus, então, disse abertamente:
«O Meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e consumar a Sua obra».
O alimento é uma coisa de que precisamos todos os dias, para nos mantermos vivos. Jesus não o nega. E aqui fala precisamente de alimento. Portanto, dessa necessidade natural. Mas fá-lo para afirmar a existência e a exigência de um outro alimento, de um alimento mais importante, de que Ele não pode prescindir.
Jesus desceu do Céu para fazer a vontade d’Aquele que O enviou e realizar a Sua obra. Não tem pensamentos nem projectos próprios, mas sim os do Seu Pai. As palavras que diz e as obras que realiza são as do Pai. Não faz a Sua vontade, mas a vontade d’Aquele que O enviou. Esta é a vida de Jesus. Ao realizar esta tarefa, Jesus sacia a Sua fome. Ao fazer assim, alimenta-se.
A plena adesão à vontade do Pai caracteriza toda a Sua vida, até à morte na cruz, onde concluirá verdadeiramente a obra que o Pai Lhe confiou.
«O Meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e consumar a Sua obra».
Jesus considera que fazer a vontade do Pai é o Seu alimento, porque, ao realizá-la, ao “assimilá-la”, ao “comê-la”, ao identificar-Se com ela, recebe a Vida através dela. E qual é a vontade do Pai, a Sua obra, que Jesus deve realizar completamente? É dar a salvação à Humanidade, dar-lhe a Vida que não morre.
Jesus – com o Seu diálogo e com o Seu amor – comunicou uma semente desta Vida, pouco antes, à samaritana. De facto, em breve os discípulos iriam ver essa Vida germinar e expandir-se, porque a samaritana comunicou logo a outros samaritanos a riqueza que descobriu e recebeu: «Vinde ver um homem (…). Não será Ele o Messias?» (1).
E Jesus, ao falar com a samaritana, revela o plano de Deus, que é Pai: que todos os homens recebam o dom da Sua vida. É esta a obra que Jesus tem urgência em realizar, para a confiar depois aos Seus discípulos, à Igreja.
«O Meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e consumar a Sua obra».
Poderemos também nós viver esta Palavra tão típica de Jesus, a ponto de espelharmos, de um modo muito especial, o Seu ser, a Sua missão, o Seu zelo? Sem dúvida! Será necessário vivermos também nós como filhos do Pai, que somos, pela Vida que Cristo nos comunicou, e alimentarmos assim a nossa vida com a Sua vontade. Podemos fazê-lo realizando, momento após momento, aquilo que Ele quer de nós. E realizá-lo de modo perfeito, como se não tivéssemos mais nada a fazer. De facto, Deus não quer mais do que isto.
Alimentemo-nos, então, com aquilo que Deus quer de nós em cada momento presente. Experimentaremos que, agindo deste modo, ficamos saciados: temos paz, alegria, felicidade, temos uma antecipação – e não é exagerado dizê-lo – das bem-aventuranças, da suprema felicidade. Também nós, juntamente com Jesus, poderemos contribuir para consumar a obra do Pai. Será este o melhor modo para vivermos a Páscoa.
Chiara Lubich
______
1) Jo 4, 29.
Mensagem de Bento XVI Quaresma 2008
«Cristo fez-Se
pobre por vós» (cf. 2 Cor 8, 9)
Queridos irmãos e irmãs!
1. Todos os anos, a Quaresma oferece-nos uma
providencial ocasião para aprofundar o sentido e
o valor do nosso ser de cristãos, e estimula-nos
a redescobrir a misericórdia de Deus a fim de
nos tornarmos, por nossa vez, mais
misericordiosos para com os irmãos. No tempo
quaresmal, a Igreja tem o cuidado de propor
alguns compromissos específicos que ajudem,
concretamente, os fiéis neste processo de
renovação interior: tais são a oração, o jejum e
a esmola. Este ano, na habitual Mensagem
quaresmal, desejo deter-me sobre a prática da
esmola, que representa uma forma concreta de
socorrer quem se encontra em necessidade e, ao
mesmo tempo, uma prática ascética para se
libertar da afeição aos bens terrenos. Jesus
declara, de maneira peremptória, quão forte é a
atracção das riquezas materiais e como deve ser
clara a nossa decisão de não as idolatrar,
quando afirma: «Não podeis servir a Deus e ao
dinheiro» (Lc 16, 13). A esmola ajuda-nos a
vencer esta incessante tentação, educando-nos
para ir ao encontro das necessidades do próximo
e partilhar com os outros aquilo que, por
bondade divina, possuímos. Tal é a finalidade
das colectas especiais para os pobres, que são
promovidas em muitas partes do mundo durante a
Quaresma. Desta forma, a purificação interior é
corroborada por um gesto de comunhão eclesial,
como acontecia já na Igreja primitiva. São Paulo
fala disto mesmo quando, nas suas Cartas, se
refere à colecta para a comunidade de Jerusalém
(cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27).
2. Segundo o ensinamento evangélico, não somos
proprietários mas administradores dos bens que
possuímos: assim, estes não devem ser
considerados propriedade exclusiva, mas meios
através dos quais o Senhor chama cada um de nós
a fazer-se intermediário da sua providência
junto do próximo. Como recorda o Catecismo da
Igreja Católica, os bens materiais possuem um
valor social, exigido pelo princípio do seu
destino universal (cf. n. 2403).
É evidente, no Evangelho, a admoestação que
Jesus faz a quem possui e usa só para si as
riquezas terrenas. À vista das multidões
carentes de tudo, que passam fome, adquirem o
tom de forte reprovação estas palavras de São
João: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o
seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o
seu coração, como pode estar nele o amor de
Deus?» (1 Jo 3, 17). Entretanto, este apelo à
partilha ressoa, com maior eloquência, nos
Países cuja população é composta, na sua
maioria, por cristãos, porque é ainda mais grave
a sua responsabilidade face às multidões que
penam na indigência e no abandono. Socorrê-las é
um dever de justiça, ainda antes de ser um gesto
de caridade.
3. O Evangelho ressalta uma característica
típica da esmola cristã: deve ficar escondida.
«Que a tua mão esquerda não saiba o que fez a
direita», diz Jesus, «a fim de que a tua esmola
permaneça em segredo» (Mt 6, 3-4). E, pouco
antes, tinha dito que não devemos vangloriar-nos
das nossas boas acções, para não corrermos o
risco de ficar privados da recompensa celeste
(cf. Mt 6, 1-2). A preocupação do discípulo é
que tudo seja para a maior glória de Deus. Jesus
admoesta: «Brilhe a vossa luz diante dos homens
de modo que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5,
16). Portanto, tudo deve ser realizado para
glória de Deus, e não nossa. Queridos irmãos e
irmãs, que esta consciência acompanhe cada gesto
de ajuda ao próximo evitando que se transforme
num meio nos pormos em destaque. Se, ao
praticarmos uma boa acção, não tivermos como
finalidade a glória de Deus e o verdadeiro bem
dos irmãos, mas visarmos antes uma compensação
de interesse pessoal ou simplesmente de louvor,
colocamo-nos fora da lógica evangélica. Na
moderna sociedade da imagem, é preciso redobrar
de atenção, dado que esta tentação é frequente.
A esmola evangélica não é simples filantropia:
trata-se antes de uma expressão concreta da
caridade, virtude teologal que exige a conversão
interior ao amor de Deus e dos irmãos, à
imitação de Jesus Cristo, que, ao morrer na
cruz, Se entregou totalmente por nós. Como não
agradecer a Deus por tantas pessoas que no
silêncio, longe dos reflectores da sociedade
mediática, realizam com este espírito generosas
acções de apoio ao próximo em dificuldade? De
pouco serve dar os próprios bens aos outros, se
o coração se ensoberbece com isso: tal é o
motivo por que não procura um reconhecimento
humano para as obras de misericórdia realizadas
quem sabe que Deus «vê no segredo» e no segredo
recompensará.
4. Convidando-nos a ver a esmola com um olhar
mais profundo que transcenda a dimensão
meramente material, a Escritura ensina-nos que
há mais alegria em dar do que em receber (cf.
Act 20, 35). Quando agimos com amor, exprimimos
a verdade do nosso ser: de facto, fomos criados
a fim de vivermos não para nós próprios, mas
para Deus e para os irmãos (cf. 2 Cor 5, 15).
Todas as vezes que por amor de Deus partilhamos
os nossos bens com o próximo necessitado,
experimentamos que a plenitude de vida provém do
amor e tudo nos retorna como bênção sob forma de
paz, satisfação interior e alegria. O Pai
celeste recompensa as nossas esmolas com a sua
alegria. Mais ainda: São Pedro cita, entre os
frutos espirituais da esmola, o perdão dos
pecados. «A caridade – escreve ele – cobre a
multidão dos pecados» (1 Pd 4, 8). Como se
repete com frequência na liturgia quaresmal,
Deus oferece-nos, a nós pecadores, a
possibilidade de sermos perdoados. O facto de
partilhar com os pobres o que possuímos,
predispõe-nos para recebermos tal dom. Penso,
neste momento, em quantos experimentam o peso do
mal praticado e, por isso mesmo, se sentem longe
de Deus, receosos e quase incapazes de recorrer
a Ele. A esmola, aproximando-nos dos outros,
aproxima-nos de Deus também e pode tornar-se
instrumento de autêntica conversão e
reconciliação com Ele e com os irmãos.
5. A esmola educa para a generosidade do amor.
São José Bento Cottolengo costumava recomendar:
«Nunca conteis as moedas que dais, porque eu
sempre digo: se ao dar a esmola a mão esquerda
não há de saber o que faz a direita, também a
direita não deve saber ela mesma o que faz » (Detti
e pensieri, Edilibri, n. 201). A este propósito,
é muito significativo o episódio evangélico da
viúva que, da sua pobreza, lança no tesouro do
templo «tudo o que tinha para viver» (Mc 12,
44). A sua pequena e insignificante moeda
tornou-se um símbolo eloquente: esta viúva dá a
Deus não o supérfluo, não tanto o que tem como
sobretudo aquilo que é; entrega-se totalmente a
si mesma.
Este episódio comovedor está inserido na
descrição dos dias que precedem imediatamente a
paixão e morte de Jesus, o Qual, como observa
São Paulo, fez-Se pobre para nos enriquecer pela
sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9); entregou-Se
totalmente por nós. A Quaresma, nomeadamente
através da prática da esmola, impele-nos a
seguir o seu exemplo. Na sua escola, podemos
aprender a fazer da nossa vida um dom total;
imitando-O, conseguimos tornar-nos disponíveis
para dar não tanto algo do que possuímos, mas
darmo-nos a nós próprios. Não se resume
porventura todo o Evangelho no único mandamento
da caridade? A prática quaresmal da esmola
torna-se, portanto, um meio para aprofundar a
nossa vocação cristã. Quando se oferece
gratuitamente a si mesmo, o cristão testemunha
que não é a riqueza material que dita as leis da
existência, mas o amor. Deste modo, o que dá
valor à esmola é o amor, que inspira formas
diversas de doação, segundo as possibilidades e
as condições de cada um.
6. Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma
convida-nos a «treinar-nos» espiritualmente,
nomeadamente através da prática da esmola, para
crescermos na caridade e nos pobres
reconhecermos o próprio Cristo. Nos Actos dos
Apóstolos, conta-se que o apóstolo Pedro disse
ao coxo que pedia esmola à porta do templo: «Não
tenho ouro nem prata, mas vou dar-te o que
tenho: Em nome de Jesus Cristo Nazareno,
levanta-te e anda» (Act 3, 6). Com a esmola,
oferecemos algo de material, sinal do dom maior
que podemos oferecer aos outros com o anúncio e
o testemunho de Cristo, em cujo nome temos a
vida verdadeira. Que este período se
caracterize, portanto, por um esforço pessoal e
comunitário de adesão a Cristo para sermos
testemunhas do seu amor. Maria, Mãe e Serva fiel
do Senhor, ajude os crentes a regerem o «combate
espiritual» da Quaresma armados com a oração, o
jejum e a prática da esmola, para chegarem às
celebrações das Festas Pascais renovados no
espírito. Com estes votos, de bom grado concedo
a todos a Bênção Apostólica.
BENEDICTUS PP. XVI
Palavra
de Vida de Fevereiro de 2008

««Aquele que praticar [estes preceitos] e ensinar [aos homens], esse será grande no Reino do Céu»
(Mt
5, 19).
R odeado pela multidão, Jesus subiu à montanha e proclamou
o seu célebre sermão. As primeiras palavras – «Felizes os pobres em espírito, (...).
Felizes os mansos…» – indicam imediatamente a novidade da mensagem que Ele veio trazer.
São palavras de vida, de luz, de esperança, com que Jesus ilumina os Seus discípulos, para que as suas vidas adquiram sabor e significado.
Transformados por esta grande mensagem, eles são convidados a levar a outros os ensinamentos que receberam, traduzidos em vida.
«Aquele que praticar [estes preceitos] e ensinar [aos homens], esse será grande no Reino do Céu».
Hoje, mais do que nunca, a nossa sociedade precisa de conhecer as palavras do Evangelho e de se deixar transformar por elas. Jesus deve poder repetir ainda: «Não vos irriteis com os vossos irmãos; perdoai e sereis perdoados; dizei sempre a verdade, e assim não tereis necessidade de jurar; amai os vossos inimigos; reconhecei que tendes um só Pai e que sois todos irmãos e irmãs; tudo aquilo que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles». É este o sentido de algumas das muitas palavras do “Sermão da Montanha”. Se fossem vividas, seriam suficientes para transformar o mundo.
Jesus convida-nos a anunciar o Seu Evangelho. Mas pede-nos para, antes de “ensinarmos” as Suas palavras, as “vivermos”. Se queremos que os outros acreditem em nós, temos que nos tornar “especialistas” do Evangelho, ser um “Evangelho vivo”. Só então o poderemos testemunhar com a vida e ensiná-lo com palavras.
«Aquele que praticar [estes preceitos] e ensinar [aos homens], esse será grande no Reino do Céu».
Qual o modo melhor para viver esta Palavra? Fazer com que seja o próprio Jesus a ensinar-nos. Para isso, é preciso atrair a Sua presença em nós e entre nós, com o nosso amor recíproco. Será Ele a sugerir-nos as palavras a dizer, quando falamos com as pessoas, a indicar-nos os caminhos, a abrir-nos a passagem para entrar no coração dos irmãos, para O testemunhar onde quer que nos encontremos, mesmo nos ambientes mais difíceis e nas situações mais complicadas. Vamos ver, então, o mundo – aquela pequena parte de mundo onde vivemos – transformar-se, converter-se à concórdia, à compreensão, à paz.
O importante é manter viva entre nós a Sua presença com o nosso amor recíproco. Ser dóceis em ouvir e seguir a Sua voz: a voz da consciência que nos fala constantemente se soubermos fazer calar as outras vozes.
Será Ele que nos vai ensinar a “pôr em prática”, com alegria e criatividade, até os “mínimos” preceitos, de modo a esculpir com perfeição a nossa vida de unidade. Que se possa dizer de nós aquilo que se dizia, naquela época, dos primeiros cristãos: «Olha como eles se amam (...) e como estão preparados a morrer uns pelos outros» (1). Pelo modo como os nossos relacionamentos forem renovados pelo amor, os outros poderão verificar que o Evangelho pode realmente gerar uma sociedade nova.
Não podemos guardar para nós o tesouro que recebemos: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (2), é o que devemos repetir com S. Paulo. Se nos deixarmos guiar pela voz interior, poderemos sempre descobrir novas possibilidades de comunicar: falando, escrevendo, dialogando. Que o Evangelho torne a brilhar, através das nossas pessoas, nas nossas casas, nas nossas cidades, nos nossos países. Florescerá uma vida nova também em nós; a alegria crescerá nos nossos corações. Daremos um testemunho maior do Ressuscitado… e, então, Ele considerar-nos-á “grandes no Seu Reino”.
Uma excelente demonstração disto é a vida da Ginetta Calliari. Ao chegar ao Brasil, em 1959, com o primeiro grupo dos Focolares, sofreu um grande choque ao deparar-se, bruscamente, com as graves desigualdades daquele país. Decidiu dedicar-se ao amor recíproco, vivendo com radicalidade as Palavras de Jesus. Dizia ela, com convicção: «Será Ele a abrir-nos o caminho». Com o passar do tempo, juntamente com ela, desenvolveu-se e consolidou-se uma comunidade que, actualmente, é constituída por centenas de milhares de pessoas de todas as categorias e idades: moradores das favelas e pessoas pertencentes às classes abastadas, que se põem ao serviço dos mais pobres. Assim, foi possível concretizar obras sociais que mudaram o rosto das favelas em diversas cidades. Um pequeno “povo” unido, que continua a mostrar que o Evangelho é verdadeiro. Foi este o dote que a Ginetta levou consigo quando partiu para o Céu.
Chiara Lubich
1) Tertuliano, Apologético, 39, 7 (Liv. Alcalá, Lisboa 2002, p. 463); 2) cf. 1 Cor 9, 16.
Palavra
de Vida de Janeiro de 2008

«Orai
sem cessar»
(1
Tes 5, 17).
E
ste ano comemora-se o centenário da “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”. O “Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos” foi celebrado pela primeira vez de 18 a 25 de Janeiro de 1908. Sessenta anos mais tarde, em 1968, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos foi preparada conjuntamente pela Comissão Fé e Constituição (Conselho Ecuménico das Igrejas) e pelo Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos (Igreja Católica). Assim, desde então, é prática comum reunirem-se, todos os anos, cristãos católicos e cristãos de várias Igrejas, para preparar um pequeno livro com as sugestões para a celebração da Semana de Oração.
A Palavra, escolhida este ano por um grande grupo ecuménico dos Estados Unidos, foi tirada da Primeira Carta de S. Paulo aos cristãos de Tessalónica, na Grécia. Esta era uma comunidade pequena, jovem, e S. Paulo sentia a necessidade de que se consolidasse, cada vez mais, a unidade entre os seus membros. Por isso, convidava-os a «conservarem a paz» entre eles, a serem «pacientes para com todos», a não retribuírem «o mal com o mal», mas a procurarem «sempre o bem uns dos outros e de todos», e também a orarem «sem cessar». Era como se quisesse sublinhar que a vida de unidade na comunidade cristã só é possível através de uma vida de oração. O próprio Jesus rezou ao Pai pela unidade dos seus discípulos: «Que todos sejam um só» (1).
«Orai sem cessar».
Porquê “orar sempre”? Porque a oração é essencial à pessoa, enquanto ser humano. Fomos criados à imagem de Deus, como um “tu” de Deus, com a possibilidade de estar numa relação de comunhão com Ele. A relação de amizade, o colóquio espontâneo, simples e verdadeiro com Ele – e a oração é isto –, portanto, é constitutivo do nosso ser. Permite que nos tornemos pessoas autênticas, com toda a dignidade de filhos e filhas de Deus.
Criados como um “tu” de Deus, podemos viver em constante relação com Ele, deixando que o Espírito Santo encha de amor o nosso coração, e com a confidência que se tem com o próprio Pai: aquela confidência que leva a falarmos com Ele muitas vezes, a expor-Lhe todos os nossos problemas, os nossos pensamentos, os nossos projectos; aquela confidência que nos faz esperar com impaciência o momento dedicado à oração – repartido, durante o dia, noutros compromissos de trabalho, de família –, para nos pormos em contacto profundo com Aquele por Quem nos sentimos amados.
É preciso “orar sempre”, não só pelas nossas necessidades, mas também para que possamos colaborar na edificação do Corpo de Cristo e pela plena e visível comunhão dentro da Igreja de Cristo. Trata-se de um mistério que, de certo modo, podemos compreender se pensarmos nos vasos comunicantes. Quando deitamos mais água num dos vasos, o nível do líquido eleva-se em todos eles. O mesmo acontece quando alguém reza. A oração é uma elevação da alma para Deus, para O adorar e Lhe agradecer. Por isso, de modo análogo, quando alguém se eleva, também os outros se elevam.
«Orai sem cessar».
Como é que podemos “orar sem cessar”, especialmente quando nos encontramos imersos no turbilhão da vida quotidiana?
“Orar sempre” não significa multiplicar as orações, mas orientar a alma e a vida para Deus, viver a fazer a Sua vontade: estudar, trabalhar, sofrer, descansar e, até, morrer por Ele. E chegar ao ponto de já não conseguirmos viver, no dia a dia, sem nos pormos de acordo com Ele.
Assim, o nosso agir transforma-se numa acção sagrada e o dia inteiro torna-se uma oração.
Pode ser uma ajuda oferecermos a Deus cada acção que fizermos, acompanhando-a com um: «Por ti, Jesus». Ou, nas dificuldades: «O que é importante? O importante é amar-Te». Assim podemos transformar tudo num acto de amor.
E a oração torna-se contínua, porque contínuo será o nosso amor.
Chiara Lubich
1) Jo 17, 21.
FAMÍLIA HUMANA, COMUNIDADE DE PAZ
Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz
1 de Janeiro de 2008
1. No início de um novo ano, desejo fazer chegar os meus ardentes votos de paz, acompanhados duma calorosa mensagem de esperança, aos homens e mulheres do mundo inteiro; faço-o, propondo à reflexão comum o tema com que abri esta mensagem e que me está particularmente a peito: Família humana, comunidade de paz. Com efeito, a primeira forma de comunhão entre pessoas é a que o amor suscita entre um homem e uma mulher decididos a unir-se estavelmente para construírem juntos uma nova família. Entretanto, os povos da terra também são chamados a instaurar entre si relações de solidariedade e colaboração, como convém em membros da única família humana: «Os homens – sentenciou o Concílio Vaticano II – constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano (Act 17, 26); têm também todos um só fim último, Deus».
Família, sociedade e paz
2. A família natural, enquanto comunhão íntima de vida e de amor fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher, constitui «o lugar primário da ‘‘humanização'' da pessoa e da sociedade», o «berço da vida e do amor».(4) Por isso, a família é justamente designada como a primeira sociedade natural, «uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo de todo o ordenamento social».
3. Com efeito, numa vida familiar «sã» experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs; a função da autoridade manifestada pelos pais; o serviço carinhoso aos membros mais débeis, porque pequenos doentes ou idosos; a mútua ajuda nas necessidades da vida; a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz. Não admira, pois, que a violência, quando perpetrada em família, seja sentida como particularmente intolerável. Deste modo, quando se diz que a família é «a primeira célula vital da sociedade», afirma-se algo de essencial. A família é fundamento da sociedade inclusivamente porque permite fazer decisivas experiências de paz. Devido a isso, a comunidade humana não pode prescindir do serviço que a família realiza. Onde poderá o ser humano em formação aprender melhor a apreciar o «sabor» genuíno da paz do que no «ninho» primordial que a natureza lhe prepara? A linguagem familiar usa um léxico de paz; aqui é necessário recorrer sempre para não perder o uso do vocabulário da paz. Na inflação das linguagens, a sociedade não pode perder a referência àquela «gramática» que cada criança aprende dos gestos e olhares da mãe e do pai, antes mesmo das suas palavras.
4. Uma vez que a família tem o dever de educar os seus membros, a mesma é titular de direitos específicos. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, que constitui uma aquisição de civilização jurídica de valor verdadeiramente universal, afirma que «a família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito a ser protegida pela sociedade e pelo Estado». Por seu lado, a Santa Sé quis reconhecer uma especial dignidade jurídica à família, publicando a Carta dos Direitos da Família. Lê-se no Preâmbulo: «Os direitos da pessoa, ainda que expressos como direitos do indivíduo, têm uma dimensão social fundamental, que encontra na família a sua expressão originária e vital». Os direitos enunciados na Carta são expressão e explicitação da lei natural, inscrita no coração do ser humano e que lhe é manifestada pela razão. A negação ou mesmo a restrição dos direitos da família, obscurecendo a verdade sobre o homem, ameaça os próprios alicerces da paz.
5. Deste modo quem, mesmo inconscientemente, combate a instituição familiar, debilita a paz na comunidade inteira, nacional e internacional, porque enfraquece aquela que é efectivamente a principal «agência» de paz. Este é um ponto que merece especial reflexão: tudo o que contribui para debilitar a família fundada sobre o matrimónio de um homem e uma mulher, aquilo que directa ou indirectamente refreia a sua abertura ao acolhimento responsável de uma nova vida, o que dificulta o seu direito de ser a primeira responsável pela educação dos filhos, constitui um impedimento objectivo no caminho da paz. A família tem necessidade da casa, do emprego ou do justo reconhecimento da actividade doméstica dos pais, da escola para os filhos, de assistência sanitária básica para todos. Quando a sociedade e a política não se empenham a ajudar a família nestes campos, privam-se de um recurso essencial ao serviço da paz. De forma particular os meios de comunicação social, pelas potencialidades educativas de que dispõem, têm uma responsabilidade especial de promover o respeito pela família, de ilustrar as suas expectativas e os seus direitos, de pôr em evidência a sua beleza.
A humanidade é uma grande família
6. A própria comunidade social, para viver em paz, é chamada a inspirar-se nos valores por que se rege a comunidade familiar. Isto vale tanto para as comunidades locais como nacionais; mais, vale para a própria comunidade dos povos, para a família humana que vive nesta casa comum que é a Terra. Numa tal perspectiva, porém, não se pode esquecer que a família nasce do «sim» responsável e definitivo de um homem e de uma mulher e vive do «sim» consciente dos filhos que pouco a pouco passam a fazer parte dela. Para prosperar, a comunidade familiar tem necessidade do consenso generoso de todos os seus membros. É preciso que esta consciência se torne convicção partilhada também por quantos são chamados a formar a família humana comum. É necessário saber dizer o «sim» pessoal a esta vocação que Deus inscreveu na nossa própria natureza. Não vivemos uns ao lado dos outros por acaso; estamos todos a percorrer um mesmo caminho como homens e por isso como irmãos e irmãs. Desta forma, é essencial que cada um se empenhe por viver a própria vida em atitude de responsabilidade diante de Deus, reconhecendo n'Ele a fonte originária da existência, própria e alheia. É subindo até este Princípio supremo que se pode perceber o valor incondicional de todo o ser humano, colocando as premissas para a edificação duma humanidade pacificada. Sem este Fundamento transcendente, a sociedade é apenas uma agregação de vizinhos, e não uma comunidade de irmãs e irmãos chamados a formar uma grande família.
Família, comunidade humana e ambiente
7. A família precisa duma casa, dum ambiente à sua medida onde tecer as próprias relações. No caso da família humana, esta casa é a Terra, o ambiente que Deus criador nos deu para que o habitássemos com criatividade e responsabilidade. Devemos cuidar do ambiente: este foi confiado ao homem, para que o guarde e cultive com liberdade responsável, tendo sempre como critério orientador o bem de todos. Obviamente, o ser humano tem um primado de valor sobre toda a criação. Respeitar o ambiente não significa considerar a natureza material ou animal mais importante do que o homem; quer dizer antes não a considerar egoisticamente à completa disposição dos próprios interesses, porque as gerações futuras também têm o direito de beneficiar da criação, exprimindo nela a mesma liberdade responsável que reivindicamos para nós. Nem se hão-de esquecer os pobres, em muitos casos excluídos do destino universal dos bens da criação. Actualmente a humanidade teme pelo futuro equilíbrio ecológico. Será bom que as avaliações a este respeito se façam com prudência, no diálogo entre peritos e cientistas, sem acelerações ideológicas para conclusões apressadas e sobretudo pondo-se conjuntamente de acordo sobre um modelo de progresso sustentável, que garanta o bem-estar de todos no respeito dos equilíbrios ecológicos. Se a tutela do ambiente comporta os seus custos, estes devem ser distribuídos com justiça tendo em conta a disparidade de desenvolvimento dos vários países e a solidariedade com as futuras gerações. Prudência não significa deixar de assumir as próprias responsabilidades e adiar as decisões; significa antes assumir o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objectivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho.
8. A tal propósito, é fundamental «sentir» a terra como «nossa casa comum» e escolher, para uma gestão da mesma ao serviço de todos, a estrada do diálogo em vez de decisões unilaterais. Podem-se aumentar, se for necessário, os lugares institucionais a nível internacional, para se enfrentar conjuntamente o governo desta nossa «casa»; mas, o que mais conta é fazer amadurecer nas consciências a convicção da necessidade de colaborar responsavelmente. Os problemas que se desenham no horizonte são complexos e o tempo escasseia. Para fazer frente de maneira eficaz à situação, é preciso agir de comum acordo. Um âmbito onde seria particularmente necessário intensificar o diálogo entre as nações é o da gestão dos recursos energéticos do planeta. A tal respeito, uma dupla urgência preme sobre os países tecnologicamente avançados: é preciso, por um lado, rever os elevados níveis de consumo devido ao modelo actual de progresso e, por outro, providenciar adequados investimentos para a diferenciação das fontes de energia e o melhoramento da sua utilização. Os países emergentes sentem carência de energia, mas às vezes esta carência é remediada prejudicando os países pobres, que, pela insuficiência das suas infra-estruturas nomeadamente tecnológicas, se vêem obrigados a vender ao desbarato os recursos energéticos em seu poder. Às vezes a sua própria liberdade política é posta em discussão por formas de protectorado ou, em todo o caso, de condicionamento que acabam por ser claramente humilhantes.
Família, comunidade humana e economia
9. Condição essencial para a paz nas famílias é que estas assentem sobre o alicerce firme de valores espirituais e éticos compartilhados. No entanto, é preciso acrescentar que a família experimenta autenticamente a paz quando a ninguém falta o necessário, e o património familiar – fruto do trabalho de alguns, da poupança de outros e da colaboração activa de todos – é bem gerido na solidariedade, sem excessos nem desperdício. Para a paz familiar, portanto, é necessária a abertura a um património transcendente de valores, mas, simultaneamente, há que não menosprezar a sapiente gestão quer dos bens materiais quer das relações entre as pessoas. O falhanço nesta componente tem como consequência a quebra da confiança recíproca devido às perspectivas incertas que passam a pairar sobre o futuro do núcleo familiar.
10. O mesmo se diga daquela grande família que é a humanidade no seu todo. De facto a família humana, que hoje aparece ainda mais interligada pelo fenómeno da globalização, além de um alicerce de valores compartilhados, tem necessidade também de uma economia que corresponda verdadeiramente às exigências de um bem comum com dimensões planetárias. A referência à família natural revela-se, sob este ponto de vista também, singularmente sugestiva. Entre os indivíduos humanos e entre os povos, é preciso promover relações correctas e sinceras, que permitam a todos colaborarem num plano de paridade e justiça. Ao mesmo tempo, tem de se trabalhar por uma sábia utilização dos recursos e uma equitativa distribuição da riqueza. De forma particular, as ajudas concedidas aos países pobres devem obedecer a critérios duma lógica económica sã, evitando desperdícios que no fim de contas resultam sobretudo do funcionamento de custosos aparelhos burocráticos. É preciso ter em devida conta também a exigência moral de fazer com que a organização económica não obedeça somente às duras leis do lucro imediato, que se podem revelar desumanas.
Família, comunidade humana e lei moral
11. Uma família vive em paz se todos os seus componentes se sujeitam a uma norma comum: é esta que impede o individualismo egoísta e que mantém unidos os indivíduos, favorecendo a sua coexistência harmoniosa e laboriosidade para o fim comum. Tal critério, em si óbvio, vale também para as comunidades mais amplas: desde as locais passando pelas nacionais, até à própria comunidade internacional. Para se gozar de paz, há necessidade duma lei comum que ajude a liberdade a ser verdadeiramente tal, e não um arbítrio cego, e que proteja o fraco da prepotência do mais forte. Na família dos povos, verificam-se muitos comportamentos arbitrários, seja dentro dos diversos Estados seja nas relações destes entre si. Além disso, não faltam situações em que o fraco tem de inclinar a cabeça não frente às exigências da justiça mas à força nua e crua de quem possui mais meios do que ele. É preciso repeti-lo: a força há-de ser sempre disciplinada pela lei, e isto mesmo deve acontecer também nas relações entre Estados soberanos.
12. Sobre a natureza e a função da lei, já muitas vezes se pronunciou a Igreja: a norma jurídica que regula as relações das pessoas entre si, disciplinando os comportamentos externos e prevendo também sanções para os transgressores, tem como critério a norma moral assente na natureza das coisas. A razão humana, por sua vez, é capaz de discerni-la, pelo menos nas suas exigências fundamentais, subindo assim até à Razão criadora de Deus que está na origem de todas as coisas. Esta norma moral deve regular as opções das consciências e guiar todos os comportamentos dos seres humanos. Existirão normas jurídicas para as relações entre as nações que formam a família humana? E, se existem, serão operativas? Eis a resposta: sim, as normas existem, mas para fazer com que sejam verdadeiramente operativas é preciso subir até à norma moral natural como base da norma jurídica; de contrário, esta fica à mercê de frágeis e provisórios consensos.
13. O conhecimento da norma moral natural não está vedado ao homem que entre em si mesmo e, tendo diante dos olhos o próprio destino, se interrogue sobre a lógica interna das mais profundas inclinações presentes no seu ser. Embora com perplexidades e incertezas, ele pode chegar a descobrir, pelo menos nas suas linhas essenciais, esta lei moral comum que, independentemente das diferenças culturais, permite aos seres humanos entenderem-se entre si quanto aos aspectos mais importantes do bem e do mal, do justo e do injusto. É imprescindível subir até esta lei fundamental, empenhando nesta pesquisa as nossas melhores energias intelectuais sem deixar-se desanimar por equívocos nem confusões. Com efeito, valores radicados na lei natural estão presentes, ainda que de forma fragmentária e nem sempre coerente, nos acordos internacionais, nas formas de autoridade universalmente reconhecidas, nos princípios do direito humanitário recebido nas legislações dos diversos Estados ou nos estatutos dos organismos internacionais. A humanidade não está «sem lei». É urgente, porém, prosseguir o diálogo sobre estes temas, favorecendo a convergência das próprias legislações dos diversos Estados sobre o reconhecimento dos direitos humanos fundamentais. O crescimento da cultura jurídica no mundo depende, para além do mais, do esforço de tornar as normas internacionais sempre substanciosas de conteúdo profundamente humano, para evitar a sua redução a procedimentos facilmente contornáveis por motivos egoístas ou ideológicos.
Superação dos conflitos e desarmamento
14. A humanidade vive hoje, infelizmente, grandes divisões e fortes conflitos que lançam densas sombras sobre o seu futuro. Temos vastas áreas do planeta envolvidas em tensões crescentes, enquanto o perigo de se multiplicarem os países detentores de armas nucleares cria motivadas apreensões em toda a pessoa responsável. Há ainda muitas guerras civis no continente africano, embora também se tenham registado em vários dos seus países progressos na liberdade e na democracia. O Médio Oriente continua a ser teatro de conflitos e atentados, que não deixam de influenciar nações e regiões limítrofes com o risco de arrastá-las na espiral da violência. A nível mais geral, há que registar, com tristeza, um número maior de Estados envolvidos na corrida aos armamentos: temos até nações em vias de desenvolvimento que destinam uma quota importante do seu magro produto interno para a compra de armas. Neste funesto comércio, são muitas as responsabilidades: há os países do mundo industrialmente desenvolvido que arrecadam avultados lucros da venda de armas e temos as oligarquias reinantes em muitos países pobres que pretendem reforçar a sua posição com a aquisição de armas cada vez mais sofisticadas. Em tempos tão difíceis, é verdadeiramente necessária a mobilização de todas as pessoas de boa vontade para se encontrarem acordos concretos que visem uma eficaz desmilitarização, sobretudo no campo das armas nucleares. Nesta fase em que o processo de não-proliferação nuclear marca passo, sinto-me no dever de exortar as Autoridades a retomarem, com a mais firme determinação, as conversações em ordem ao desmantelamento progressivo e concordado das armas nucleares existentes. Ao renovar este apelo, sei que dou voz a um desejo compartilhado por quantos têm a peito o futuro da humanidade.
15. Há 60 anos, a Organização das Nações Unidas tornava pública, de maneira solene, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948-2008). Com tal documento, a família humana reagia aos horrores da II Guerra Mundial, reconhecendo a sua própria unidade assente na igual dignidade de todos os homens e pondo, no centro da convivência humana, o respeito pelos direitos fundamentais dos indivíduos e dos povos: tratou-se de um passo decisivo no árduo e empenhativo caminho da concórdia e da paz. Merece também menção especial a passagem do 25.º aniversário da adopção pela Santa Sé da Carta dos Direitos da Família (1983-2008), bem como o 40.º aniversário da celebração do primeiro Dia Mundial da Paz (1968-2008). Fruto duma providencial intuição do Papa Paulo VI, retomada com grande convicção pelo meu amado e venerado predecessor, Papa João Paulo II, a celebração deste Dia proporcionou ao longo dos anos a possibilidade de a Igreja desenvolver, através das Mensagens publicadas para tal circunstância, uma doutrina elucidativa em defesa deste bem humano fundamental. É precisamente à luz de tais significativas comemorações que convido todo o homem e toda a mulher a tomarem consciência mais lúcida da sua pertença comum à única família humana e a empenharem-se para que a convivência sobre a terra espelhe cada vez mais esta convicção, da qual depende a instauração de uma paz verdadeira e duradoura. Em seguida, convido os crentes a implorarem de Deus, sem cessar, o grande dom da paz. Os cristãos, por seu lado, sabem que podem confiar-se à intercessão d'Aquela que, sendo Mãe do Filho de Deus encarnado para a salvação da humanidade inteira, é Mãe comum.
A todos desejo um feliz Ano Novo!
Vaticano, 8 de Dezembro de 2007
BENEDICTUS PP. XVI
Palavra de Vida de Dezembro de 2007
«É no amor que está o pleno
cumprimento
da lei»
(Rm
13, 10).
Estas palavras concluem uma ampla secção da
Carta aos Romanos, na qual S. Paulo nos apresenta a vida cristã como uma vida de amor para com os nossos irmãos e irmãs. De facto, é este o novo culto espiritual que o cristão é chamado a oferecer a Deus, guiado pelo Espírito Santo (1), que primeiro o suscita no coração de cada um. Resumindo o conteúdo desta secção, o Apóstolo afirma que o amor ao próximo nos faz cumprir a vontade de Deus, contida na Lei (isto é, nos mandamentos), de um modo pleno e perfeito. O amor para com os nossos irmãos e irmãs é a maneira melhor e mais autêntica de demonstrarmos o nosso amor para com Deus.
«É no amor que está o pleno cumprimento da lei».
Mas em que consiste concretamente esta plenitude e perfeição? Deduzimo-lo pelos versículos precedentes, nos quais o Apóstolo nos descreve as várias expressões e os efeitos deste amor. Antes de mais, o verdadeiro amor pelo próximo não lhe faz nenhum mal (2). Leva-nos, portanto, a viver todos os mandamentos de Deus, sem excluir nenhum (3), já que o primeiro objectivo dos mandamentos é fazer-nos evitar todas as formas de mal – em que poderíamos cair – para connosco mesmos e para com os nossos irmãos e irmãs. Além de não fazer nenhum mal, este amor impele-nos, ainda, a praticar todo o bem de que o próximo tem necessidade (4).
Esta Palavra leva-nos a ter um amor solidário e sensível às necessidades, expectativas, direitos legítimos dos nossos irmãos e irmãs; um amor que respeita a dignidade humana e cristã; um amor puro, compreensivo, capaz de partilhar, aberto a todos, como Jesus nos ensinou. Não é possível termos este amor sem estarmos dispostos a sair do nosso individualismo e da nossa auto-suficiência. Por isso, esta Palavra ajuda-nos a vencer todas aquelas tendências egoístas (soberba, avareza, luxúria, ambição, vaidade, etc.), que trazemos dentro de nós e que constituem o seu principal obstáculo (5).
«É no amor que está o pleno cumprimento da lei».
Como vamos então viver a Palavra de Vida, neste mês do Natal? Tendo presentes as várias exigências do amor ao próximo a que ela nos chama. Em primeiro lugar, evitaremos fazer o mal ao próximo em todas as suas formas. Dedicaremos uma atenção constante aos mandamentos de Deus que se referem à nossa vocação, à nossa actividade profissional, ao ambiente em que vivemos. A primeira condição para praticar o amor cristão é nunca ir contra os mandamentos de Deus. Além disso, prestaremos atenção àquilo que constitui a alma, o motivo, o objectivo de todos os mandamentos. Cada um deles, como vimos, quer levar-nos a um amor cada vez mais vigilante, cada vez mais delicado e respeitoso, cada vez mais concreto para com os nossos irmãos.
Ao mesmo tempo, desenvolveremos em nós um espírito de desprendimento de nós mesmos e venceremos os nossos egoísmos. Esta é uma consequência de pôr em prática o amor cristão. Assim cumpriremos a vontade de Deus «plenamente». Demonstrar-Lhe-emos o nosso amor da forma que Lhe é mais agradável (6).
«É no amor que está o pleno cumprimento da lei».
Esta Palavra serviu de orientação a um advogado que trabalha no Ministério do Trabalho do seu país. Eis como ele conta a sua experiência: «Um dia, apresentei ao proprietário de uma empresa a denúncia de que os operários não tinham sido pagos de acordo com a lei vigente. Após catorze dias de buscas incessantes, encontrei os documentos que demonstravam as irregularidades cometidas. Pedi a Jesus a força para ser fiel às Suas palavras, que me pedem para respeitar a verdade e, ao mesmo tempo, para ser instrumento do Seu amor.
O proprietário, diante das provas, defendeu-se dizendo que certas leis lhe pareciam injustas. Fiz-lhe notar que os nossos erros não podem ser justificados pelas incoerências dos outros. Seguiu-se uma longa conversa, através da qual descobri que tinha as mesmas exigências de justiça e igualdade que ele, mas que se tinha deixado envolver pelo ambiente. Por fim, disse-me: “O senhor poderia ter-me humilhado e destruído, mas não o fez. Por isso, tenho o dever moral de agir de maneira diferente”. Entretanto, ele tinha um compromisso urgente e não havia tempo para redigir o auto de infracção. Então, pegou numa folha em branco e assinou-a, dando-me a prova de que estava disposto a mudar imediatamente».
Chiara Lubich
1) Cf. Rm 12, 1; 2) cf. Rm 13, 10; 3) cf. Rm 13, 9; 4) cf. Rm 12, 6-8; 5) cf. Rm 12, 9-21; 6) cf. Rm 12, 2.
Palavra de Vida de Novembro de 2007
«Que grande nação haverá, que possua leis
e preceitos tão
justos como esta lei…?»
(Dt
4, 8).
Os quarenta anos em que caminhou no deserto
foram, para o povo de Israel, um tempo de prova e de graça. Deus purificou-lhe o coração e mostrou-lhe o Seu imenso amor. Quando estava para entrar na Terra Prometida, Moisés recorda a experiência vivida. De um modo especial, lembra a maior dádiva que todo o povo recebeu: a lei de Deus, resumida nos Dez Mandamentos. E convida todos a porem-na em prática. Ao expor os ensinamentos de Deus, Moisés fica encantado com a maneira como Deus se tornou próximo do Seu povo, cuidou dele, ensinou-lhe preceitos de vida tão sábios, e exclama:
«Que grande nação haverá, que possua leis e preceitos tão justos como esta lei…?».
Deus gravou a Sua lei no coração de cada pessoa e falou a todos os povos de modos diferentes e em tempos diferentes. Todas as pessoas da Terra podem exultar pelo amor que Deus mostrou em relação a cada uma delas. Mas nem sempre é fácil captar o desígnio de Deus sobre a humanidade. Por isso, Ele escolheu um pequeno povo, o povo de Israel, para mostrar mais claramente o Seu plano. Por fim, enviou o Seu Filho, Jesus, que revelou plenamente o rosto de Deus, manifestando-Se Amor e condensando a Sua lei num único mandamento, de amor para com Deus e para com o próximo.
A grandeza de um povo e de cada pessoa exprime-se na sua adesão à lei de Deus, com um «sim» pessoal.
Adesão que não é uma superestrutura artificial, e muito menos uma alienação. Não é resignar-se a um destino mais ou menos bom, e também não é sujeitar-se a uma fatalidade, como se se pensasse: é assim que está determinado, e assim deve ser. É inevitável.
Não! O plano de Deus é o que de melhor se possa pensar para cada pessoa. É cooperar para que se revele o grande desígnio que Deus tem sobre cada um e sobre a humanidade inteira: fazer de todos uma só família, unida pelo amor, e levá-los a viver precisamente a vida de Deus, a vida divina.
Também nós podemos então exclamar, como Moisés:
«Que grande nação haverá, que possua leis e preceitos tão justos como esta lei…?».
Como viver, durante este mês, esta Palavra de Vida? Indo ao coração da lei divina que Jesus sintetizou no único preceito do amor. E, se passarmos em revista os Dez Mandamentos que Deus nos deu no Antigo Testamento, podemos verificar que, amando verdadeiramente a Deus e ao próximo, cumprimo-los todos e com perfeição.
Não é porventura verdade que quem ama a Deus não pode admitir outros deuses no seu coração? Que quem ama a Deus pronuncia o Seu nome de modo sagrado e não em vão? Que quem ama se alegra por poder dedicar ao menos um dia por semana Àquele que mais ama? Não é também verdade que quem ama cada próximo não pode deixar de amar os seus pais? Não é evidente que quem ama os outros não vai agora pôr-se a roubá-los, nem a matá-los, nem a aproveitar-se deles para os seus prazeres egoístas, nem a levantar falsos testemunhos contra eles? Não é também verdade, além disso, que o seu coração está já cheio e satisfeito e não sente, com certeza, o desejo de possuir os bens e as criaturas dos outros?
É assim: quem ama não comete pecado, cumpre toda a lei de Deus. Tive uma experiência disso várias vezes, nas minhas viagens em contacto com povos e etnias diferentes. Recordo sobretudo a forte impressão que me deixou o povo Bangwa em Fontem, nos Camarões, quando em 2000 aceitou de modo novo o convite para amar.
Durante o dia, de vez em quando, perguntemos a nós mesmos se as nossas acções são marcadas pelo amor. Se assim for, a nossa vida não será vã, mas um contributo para a realização do desígnio de Deus sobre a humanidade.
Chiara Lubich Voltar
Palavra de Vida de Outubro de 2007
«Proclama a palavra,
insiste em tempo propício e fora dele,
convence, repreende,
exorta com toda a compreensão
e competência» (2 Tm 4, 2).
S
im, é preciso falar, a todos, sempre! Muitas vezes a Palavra de Vida convida-nos a viver, a ser o amor. Mas é preciso também transmitir aos outros a Palavra, proclamá-la, comunicá-la, até os envolver numa vida de doação, de fraternidade.
As últimas palavras de Jesus foram: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho…» (1).
Era esta a paixão que impelia S. Paulo a viajar pelo mundo conhecido na altura e a dirigir-se a pessoas de culturas e de credos diferentes: «Se eu anuncio o Evangelho, não é para mim motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta: ai de mim, se eu não evangelizar!» (2).
Tornando-se eco das palavras de Jesus e com a força da sua própria experiência, S. Paulo recomenda também ao seu fiel discípulo, Timóteo, e a cada um de nós:
«Proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência».
Para que a palavra seja eficaz é necessário – sempre que possível – construir primeiro um relacionamento com as pessoas a quem nos dirigimos.
Mesmo quando não se pode falar com a boca, pode-se sempre falar com o coração. Às vezes, a palavra pode exprimir-se apenas através de um silêncio respeitoso, de um sorriso. Ou, interessando-se pelas preocupações do outro, por aquilo de que gosta, pelos seus problemas, lembrar-se do nome dele ou dela, de modo que sinta que é importante para nós. E é realmente importante: o outro nunca nos é indiferente.
Estas palavras sem ruído – se forem adequadas –, não podem deixar de abrir uma passagem nos corações. E, muitas vezes, o outro interessa-se por nós e faz-nos perguntas. Eis então o momento de anunciar, de proclamar. Não é preciso esperar mais, é a ocasião de falar claramente. Podem-se dizer poucas palavras, mas deve-se falar e comunicar qual é o motivo da nossa vida cristã.
«Proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência».
Como viver esta Palavra de Vida e proclamar, simplesmente com a nossa passagem, o Evangelho? Como é que o podemos dar a todos?
Amando cada um, sem distinções.
Se formos cristãos autênticos, vivendo tudo o que o Evangelho ensina, as nossas palavras não serão vazias.
O anúncio será ainda mais luminoso se soubermos testemunhar o coração do Evangelho, isto é, a unidade entre nós, conscientes de que «é por isto que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (3).
É esta a veste que todos os cristãos – homens e mulheres, casados ou não, adultos e crianças, doentes ou sãos – podem envergar para testemunhar, com a sua vida, sempre e em qualquer lugar, Aquele em quem acreditam, Aquele que querem amar.
Chiara Lubich
1) Cf. Mc 16, 15; Mt 28, 19-20; 2) 1 Cor 9, 16; 3) Jo 13, 33.
Palavra de Vida de Agosto de 2007
« Corramos com perseverança
a prova que nos é proposta,
tendo os olhos postos em Jesus »
(Heb 12, 1-2).
O
s cristãos a quem se dirige a Carta aos Hebreus estavam a passar
provações e sofrimentos. Por vezes sentiam-se desencorajados: por que não
escolher um caminho mais fácil, por que não render-se?
O autor da Carta, pelo contrário, convida a prosseguir no caminho
começado: é difícil, custa, mas a vida do Evangelho é a que leva à plenitude da
vida. Além disso, ele incita os cristãos a correr e a permanecer firmes mesmo
debaixo do peso dos sofrimentos.
Como a todos os atletas, também a cada um de nós que tomámos a decisão
de seguir Jesus, para atingir a meta é necessária a perseverança, ou seja, a
resistência, a capacidade de se manter fiel. Esta vem da convicção de que Deus
está connosco e da firme decisão de O seguir até ao fim.
Mas, acima de tudo, somos convidados a fixar bem o olhar em Jesus: Ele
precedeu-nos e guia-nos. Efectivamente, Ele, na cruz, sobretudo quando se
sentiu abandonado pelo Pai, é o modelo da coragem, da perseverança, da
suportação: soube permanecer firme na prova e entregou-se de novo nas mãos
daquele Deus de quem se sentia abandonado (1).
«Corramos com perseverança a prova que nos é proposta,
tendo
os olhos postos em Jesus».
Chiara Lubich fala muitas de Jesus, que enfrentou corajosamente, sem se
render, a maior prova: é o modelo da nossa corrida e de como se vencem as
provas. Todos os nossos sofrimentos ou provas da vida já foi experimentada
precisamente por Jesus, no seu abandono na cruz. E Chiara indica-nos também
como podemos fixar o nosso olhar n’Ele.
«Somos tomados pelo medo? Jesus na cruz, no Seu abandono, não parecia
também invadido pelo medo de que o Pai se tivesse esquecido d’Ele?».
Quando somos tomados pelo desconforto e pelo desânimo, podemos ainda
olhar para Jesus que, naquele momento, «parece submerso pela impressão de que,
na sua paixão, faltava o conforto do Pai e parece estar a perder a coragem de
concluir a sua dolorosíssima prova (…). As circunstâncias levam-nos a estar
desorientados? Jesus, naquela tremenda dor, parece já não compreender nada do
que Lhe está a acontecer, dado que grita “Porquê?” (…) E quando nos surpreende
a desilusão ou somos feridos por um trauma, ou por uma desgraça imprevista, ou
por uma doença ou por uma situação absurda, podemos sempre lembrar-nos da dor
de Jesus abandonado, que personificou todas estas provas e muitas outras ainda»
(2).
Em todas as nossas dificuldades Ele está ao nosso lado, pronto a
partilhar connosco todos os sofrimentos.
«Corramos com perseverança a prova que nos é proposta,
tendo
os olhos postos em Jesus».
Como viver então esta Palavra? Olhando para Jesus e habituando-nos a
«chamá-Lo pelo nome nas provas da nossa vida. E assim dir-Lhe-emos: Jesus
Abandonado-solidão, Jesus Abandonado-dúvida, Jesus Abandonado-ferida, Jesus Abandonado-prova,
Jesus Abandonado-desolação, e assim por diante.
E chamando-O pelo nome, Ele há-de sentir-Se identificado e reconhecido
em cada sofrimento e responder-nos-á com mais amor. E, abraçando-O, tornar-se-á
para nós: a nossa paz, o nosso conforto, a coragem, o equilíbrio, a saúde, a
vitória. Será a explicação de tudo e a solução de tudo» (3).
«Corramos com perseverança a prova que nos é proposta,
tendo
os olhos postos em Jesus».
Foi o que aconteceu com a Luísa que, há alguns anos, encontrou um folheto
com o comentário a esta Palavra de Vida. Ela própria conta: «De repente,
recebemos uma notícia terrível: o meu filho mais velho, de 29 anos, tinha tido
um acidente na estrada e encontrava-se em estado gravíssimo. Corro para o
hospital com o coração nas mãos. O meu filho está ali, imóvel, ausente. Fico
desesperada. Nos dias de angustiosa expectativa passo, casualmente, pela capela
do hospital e encontro a Palavra de Vida que me convida a ter os olhos postos
em Jesus abandonado. Leio-a atentamente: sim, digo dentro de mim, fala
precisamente da minha prova… A sala de reanimação, já sem esperança, deixou de
ser um martírio: é uma ligação com o amor de Deus. E sou capaz, pegando na mão
do meu filho, de pedir por ele que me deixa. Está morto e nunca o senti tão
vivo».
Fabio Ciardi e Gabriella Fallacara
1) Cf. Mc 15, 34; 2) Caminhando com o Ressuscitado, Cidade
Nova, Lisboa 1988, pp. 200-201; 3) ibid., p. 202.
Palavra de Vida de Julho de 2007
«Foi para a liberdade
que vós fostes chamados»
(Gl 5, 13).
Por volta dos anos 50 d. C. o apóstolo Paulo tinha ido
visitar a região da Galácia, no centro da Ásia Menor, a actual Turquia.
Nasceram ali comunidades cristãs, que abraçaram a fé com muito entusiasmo. S.
Paulo tinha-lhes apresentado Jesus crucificado, e eles receberam o baptismo que
os revestiu de Cristo e lhes comunicou a liberdade dos filhos de Deus. “Corriam
bem” no novo caminho, como reconhece o próprio S. Paulo.
Depois,
de repente, procuraram noutro lugar a sua liberdade. S. Paulo admirou-se com a
rapidez com que eles voltaram as costas a Cristo. Daí o premente convite a
reencontrarem a liberdade que Cristo lhes tinha dado:
«Foi
para a liberdade que vós fostes chamados».
Para
que liberdade somos nós chamados? Já não podemos fazer o que queremos? «Nós
nunca fomos escravos de ninguém!», diziam, por exemplo, os contemporâneos de
Jesus, quando Ele afirmava que a verdade trazida por Ele os tornaria livres.
«Todo aquele que comete o pecado é servo do pecado», tinha respondido Jesus
(1).
Há
uma escravidão dissimulada, fruto do pecado, que atormenta o coração humano.
Conhecemos muito bem as suas múltiplas manifestações: um egoísmo
individualista, um apego aos bens materiais, o hedonismo, o orgulho, a ira…
Sozinhos
nunca seremos capazes de nos libertarmos totalmente dessa escravidão. A
liberdade é uma dádiva de Jesus: Ele libertou-nos ao tornar-se nosso servo e
dando a vida por nós. É por isso que surge o convite para sermos coerentes com
a liberdade que nos foi dada.
A
liberdade «não é tanto a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, mas é
caminhar cada vez mais em direcção ao bem». Quem o diz é Chiara Lubich, falando
aos jovens: «Verifiquei – continua – que o bem liberta, o mal torna-nos
escravos. Ora, para se ter a liberdade é preciso amar. Porque aquilo que mais
nos escraviza é o nosso eu. Quando, pelo contrário, pensamos sempre nos outros,
ou na vontade de Deus, quando fazemos os nossos deveres, ou no próximo, não
pensamos em nós mesmos e somos livres de nós mesmos» (2).
«Foi
para a liberdade que vós fostes chamados».
Como
viver, então, esta Palavra de Vida? É o próprio S. Paulo que nos indica quando,
imediatamente depois de nos ter recordado que somos chamados para a liberdade,
explica que esta consiste em nos pormos «ao serviço uns dos outros», «mediante
a caridade», porque «toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama
o teu próximo como a ti mesmo» (3).
Somos
livres – eis o paradoxo do amor – quando, por amor, nos pomos ao serviço dos
outros. Quando, contrariando os impulsos egoístas, nos esquecemos de nós mesmos
e estamos atentos às necessidades dos outros.
Somos
chamados à liberdade do amor: somos livres de amar! Sim, «para se ter a
liberdade é preciso amar».
«Foi
para a liberdade que vós fostes chamados».
O
bispo Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, preso por causa da sua fé, permaneceu
na prisão durante 13 anos. Mas também ali ele se sentia livre, porque tinha
sempre a possibilidade de amar, pelo menos, os carcereiros.
Ele
mesmo conta: «Quando me isolaram dos outros companheiros, na prisão, puseram
cinco guardas para me vigiarem: por turnos, dois deles estavam sempre comigo.
Os seus chefes tinham-lhes dito: “De quinze em quinze dias, vocês vão ser
substituídos por um outro grupo, para não serem ‘contaminados’ por esse bispo
perigoso”. Após algum tempo mudaram de ideias: “Afinal já não vão ser
substituídos, se não, esse bispo vai contaminar todos os soldados”.
No
começo, os guardas não falavam comigo. Respondiam apenas sim ou não. Era
realmente triste (…). Evitavam falar comigo.
Uma
noite, tive este pensamento: “Francisco, afinal tu ainda és muito rico, tens o
amor de Cristo no teu coração. Ama-os como Jesus te amou”.
No
dia seguinte comecei a amá-los ainda mais, a amar Jesus na pessoa de cada um
deles, sorrindo, dirigindo-lhes palavras amáveis. Comecei a contar-lhes
histórias acerca das minhas viagens ao estrangeiro (…). Quiseram aprender as
línguas estrangeiras: o francês e o inglês… Em suma, os meus guardas
tornaram-se meus alunos!» (4).
Fabio Ciardi e Gabriella
Fallacara
1) Cf. Jo 8, 31-34; 2)
Respostas às perguntas dos jovens, Palácio dos Desportos, Roma, 20 de
Maio de 1995; 3) cf. Gl 5, 13-14; 4) Testimoni della
speranza, Città Nuova, Roma, 2000, p. 98 / Testemunhas da Esperança,
São Paulo: Cidade Nova, 2002, p. 82.
Palavra de Vida de Junho de 2007
«O Espírito da Verdade há-de guiar-vos
para a Verdade completa»
(Jo 16, 13).
O Evangelho é mesmo palavras de verdade! Aliás, são
as palavras de Jesus, que disse: «Eu sou a Verdade» (1). Pelo Evangelho, revela-se, diante de nós, o mistério infinito de Deus e podemos conhecer o Seu projecto de amor sobre a humanidade: que é a Verdade.
Mas a Verdade tem a
profundidade infinita daquele mistério, que é Deus. Como é que a podemos
compreender e viver plenamente? O próprio Jesus sabe que não somos capazes de
suportar um “peso” tão grande. Por isso, durante a Sua última ceia com os
discípulos, antes de voltar para o Pai, prometeu mandar o Seu próprio Espírito,
para ser Ele a explicar-nos as Suas palavras e a ajudar-nos a vivê-las.
«O Espírito da Verdade há-de guiar-vos para a Verdade
completa».
A comunidade dos crentes
conhece a verdade porque vive de Jesus. Ao mesmo tempo, está a caminho da
“plenitude da verdade”, sob a orientação segura do Espírito Santo.
A história da Igreja pode ser
considerada como a história da compreensão gradual, e cada vez mais profunda, do
mistério de Jesus e da Sua Palavra. O Espírito Santo foi conduzindo a Igreja ao
longo deste caminho, de várias maneiras: através da contemplação e do estudo
por parte dos crentes, com os carismas dos santos, com o Magistério da Igreja
(2).
Mas o Espírito fala também
dentro do coração de cada crente, que é onde Ele habita, fazendo ouvir a Sua
“voz”. Sugere, de quando em quando, que se perdoe, se sirva, se dê, se ame.
Ensina o que é bem e o que é mal. Recorda e faz viver as Palavras de Vida que o
Evangelho semeia em nós, mês após mês.
«O Espírito da Verdade há-de guiar-vos para a Verdade
completa».
Então, como viver esta Palavra
de Vida? Ouvindo aquela “voz” que fala dentro de nós, sendo dóceis ao Espírito
Santo que guia, exorta, impele.
«O cristão – explica Chiara
Lubich – deve caminhar sob o impulso do Espírito Santo, a fim de que o
Espírito Santo possa transformar o seu coração, com o Seu poder criador, para o
levar à santificação, à divinização e à ressurreição». Para compreender melhor
aquela “voz”, como se fosse amplificada, Chiara convida-nos a viver em unidade
entre nós. Deste modo aprendemos a ouvir a voz do Espírito Santo, não só dentro
de nós, «mas também a voz d’Ele presente entre nós,
unidos no Ressuscitado».
O Espírito Santo, quando Jesus
está entre nós, «aperfeiçoa a atenção à Sua voz dentro de cada um de nós. De
facto, Jesus entre nós, é como que um altifalante da voz do Espírito Santo em
nós.
Sempre nos pareceu que o melhor
modo de amar o Espírito Santo, de O honrar, de O ter presente no nosso coração
era precisamente escutar a Sua voz, que pode iluminar--nos em todos os momentos
da nossa vida (…). E, escutando “aquela” voz, pudemos verificar, com enorme
surpresa, que vamos caminhando para a perfeição: os defeitos, pouco a pouco,
desaparecem e as virtudes vêm em relevo»
(3).
«O Espírito da Verdade há-de guiar-vos para a Verdade
completa».
Esta Palavra de Vida, lida na
festa da Santíssima Trindade, convida-nos a invocar o Espírito Santo:
«Ó
Espirito
Santo, não Te pedimos outra coisa senão Deus por Deus. (…). Faz com que vivamos
a vida que nos resta, (…) apenas, sempre, em cada instante, unicamente em função
de Ti, o único a Quem queremos amar e servir.
Deus! Deus, espírito puro, para
o qual a nossa humanidade pode servir de cálice vazio, para se poder encher
d’Ele…
Deus, que deve transparecer no
nosso espírito, no nosso coração, no nosso semblante, nas nossas palavras, nos
nossos actos, no nosso silêncio, no nosso viver, no nosso morrer, no nosso
aparecer, depois da nossa passagem sobre a Terra, onde podemos e devemos deixar
só um rasto luminoso da Sua presença. D’Ele presente
em nós, entre a matéria e as ruínas do mundo, que vive ou que desmorona, no
louvor ou na vaidade de todas as coisas, para submissão ou remoção de tudo, a
fim de dar lugar ao Tudo, ao Único, ao Amor»
(4).
Fabio Ciardi e
Gabriella
Fallacara
1)
Jo 14, 6;
2)
cf. Dei Verbum, 8;
3)
O Espírito Santo e o Movimento dos Focolares, palestra inédita de 3 de Outubro de 1989;
4)
C. Lubich,
Fragmentos, Edição do Movimento dos Focolares, Lisboa
1973, p. 93.
MARIÁPOLIS, em Fátima, nos dias 1 a 5 de Agosto de
2007 • Informações: www.focolares.org.pt
6-2007 – OSJ Braga – 23.950 ex. – Depósito Legal nº
22304/88 • Movimento dos
Focolares
Para mais informações: Revista Cidade Nova (Tel./Fax: 218 850 666 • revista@cidadenova.org)






